sábado, 27 de agosto de 2011

Efeito Sanfona

Efeito Sanfona
Dr.Drauzio Varela
21/11/2004
 

   O mundo tem um bilhão de pessoas acima do peso. Milhões delas estão, neste momento, começando uma dieta. Milhares vão conseguir emagrecer. Mas só algumas vão permanecer magras por mais de um ano.
   
  Se você vive nesta aflição diante dos ponteiros da balança, atenção: esta é a história da Edeli, mas bem que poderia ser a sua.

"Meu nome é Edeli, eu tenho 50 anos, tenho dois filhos. Eu queria ser aquelas magras que, quando estão com problemas, travam. Mas não, eu sou daquelas gordas que comem quando estão com problemas", brinca Edeli.

     Para saber ao certo o quanto uma pessoa está gorda e quando a gordura passa a ser realmente um problema, existe o índice de massa corporal (IMC). O IMC é calculado dividindo-se o peso da pessoa pela sua altura ao quadrado, isto é altura x altura. 

"Tenho 1,59m de altura, estou pesando atualmente 82 quilos", diz Edeli. 

   Um resultado entre 18,5 e 24,9 é considerado normal. De 25 a 29 a pessoa tem sobrepeso, está acima do peso saudável. De 30 a 39 já pode ser considerada obesa. Acima de 40 tem obesidade grave, obesidade grau 3. O IMC da Edeli é 32,44. Ela está obesa.


  "Hoje eu acordei muito triste, pela luta que é esse negócio que é a obesidade na minha vida. Eu não tenho um dia de descanso. Se ontem eu comi, hoje eu pago por isso. É uma luta diária de todos os meus irmãos para manter peso. Temos facilidade para engordar", conta ela.


  Desde criança ela sofre com o excesso de peso. "Existia uma brincadeira entre as irmãs. Nós éramos três irmãs: eu, a Eliete e a Eloá. E a brincadeira era assim: cobra, jacaré e elefante. Adivinha quem era o elefante? Alguma dúvida?".

   É na infância que as células de gordura são formadas. A célula de gordura é uma esfera oleosa e brilhante, tão pequena que são necessárias milhões delas para abrigar as calorias de uma única bala.

Se a criança come muito - e come mal - estas células incham. Elas chegam a ficar seis vezes maiores do que o tamanho original. Quando estão cheias, elas se dividem, duplicando os depósitos gordurosos. Um adulto obeso pode ter até cem bilhões de células de gordura. 

  As células, cada vez em maior número e maiores também no tamanho, acompanham a pessoa pelo resto da vida. Por isso é tão difícil emagrecer. A pessoa nunca perde as células de gordura que acumulou ao engordar. Elas permanecem no corpo à espreita e, na primeira oportunidade - quer dizer - na primeira vez que você atacar aqueles bolinhos de arroz - vão novamente inchar e se multiplicar.

   Guarde bem esta informação. Nós vamos precisar dela daqui a pouco. Agora, vamos voltar à Edeli.
  "No meio da dieta, o que te dá mais vontade de comer?", pergunta Drauzio.

"Um prato de macarrão com molho quatro queijos. Nossa Senhora, umas polpetas em cima. É a dieta dos meus sonhos. Com um filé a parmegiana", responde Edeli.


Entre o desejo de ser magra e a realidade da balança, existe a comida. Edeli trabalha no restaurante do irmão e vive cercada de tentações.

"A Edeli com comida é assim. Ela decide que vai fazer dieta, aí faz no almoço e fica beliscando a tarde inteira", conta o irmão dela.

"Qual seu maior problema na vida? É esse?", pergunta Drauzio.


"É. Hoje é. É a aceitação do meu corpo", responde Edeli.


  Na busca desenfreada por um corpo magro, Edeli investe em todos os tipos de dieta. "Eu fiz a do Dr. Atkins, eu fiz a de Beverly Hills, eu fiz a de South Beach. Acho que eu já fiz umas 15, 20 dietas. Eu vivo em dieta. Essa semana, eu comecei a fazer a dieta da sopa", conta ela. Isto é vida de "cachorro".


Primeiro dia "Ontem eu me pesei, comecei a dieta com 84,9 quilos. Então assim eu almocei só sopa de legumes, só legumes, não tem um caldinho gostosinho, nada". 

Segundo dia "Fui me pesar. São 11h da manhã. E assim, deu um quilo de diferença. Tô com 83,9 quilos. Dois dias de muito sacrifício". 

Quarto dia "Não me sinto confortável. E domingo é um dia super difícil, tá mais difícil ainda hoje. Tá muito frio e eu acho que eu tô querendo comida mesmo".

Sexto dia "Comi muito pouco, muito pouco. E, no meio da tarde, eu estava com muita fome, furei a dieta e comi três damascos secos".

Último dia "Tô com uns dois quilos a menos, ou três porque as calças estão largas".

Essas dietas restritivas, com um número insignificante de calorias, funcionam no dia-a-dia ou não?
"Elas funcionam. 

  A curto prazo, qualquer dieta funciona. Por exemplo, você pode, eu até brinco, emagrecer com brigadeiro. Mas você só pode comer seis brigadeiros por dia. Isso faz emagrecer a curto prazo. Mas a longo prazo a experiência mostra que não funciona. Porque o sujeito vai acabar recuperando o peso quase que invariavelmente", explica o endocrinologista Alfredo Halpern.

   Quem faz regime - qualquer um - sempre emagrece. O problema começa aí. Como manter o peso? Sim, porque ninguém consegue, e nem agüenta, passar a vida tomando só sopa, ou comendo só atum e meia uva. Com muita fome, a pessoa acaba mesmo assaltando a geladeira.


"Eu tava morrendo de fome, aí pedi um prato de espagueti ao sugo com manjericão. Aí, mais tarde eu cheguei em casa, tinha pizza. E aí ela olhou pra mim, eu olhei pra ela, ela olhou pra mim e a gente se entendeu e comi um pedaço de pizza, além de tudo também, né?"


Tem uma constante nessas dietas todas. É que você faz durante um tempo e um dia pára e não consegue manter. "Isso aconteceu com todas elas", revela Edeli.

E aí, a balança é implacável. Aquele ataque à pizza gelada de madrugada é punido com um aumento imediato de peso. 


"Ontem eu me pesei e estava com um quilo a mais", revela Edeli. Pronto: todo o sacrifício foi inútil.

"É o músculo, é a gordura, é o metabolismo, é todo o sistema orgânico que vai querer fazer você engordar de novo", avisa Alfredo Halpern.


Lembra da célula de gordura? Quando você faz dieta e diminui o número de calorias nas refeições, as células de gordura não morrem, só encolhem. Elas "murcham".


 O cérebro interpreta este "encolhimento" como uma ameaça à integridade do organismo. E o que acontece? O organismo começa a queimar menos energia. O metabolismo fica mais lento. Ou seja, emagrece de faz de conta.

É que o corpo, com medo de perder gordura - você lembra que foi a gordura que garantiu nossa permanência como espécie - passa a trabalhar mais devagar. A gastar menos energia para fazer nossos órgãos funcionarem.


"O teu organismo começa a queimar menos calorias. Uma perda de dez quilos representa 200 calorias a menos que você queima. Para cada dez quilos que você perde o seu corpo começa a gastar menos 200 calorias por dia", exemplifica Halpern.


É uma conspiração do corpo para fazer o peso voltar ao que era antes da dieta. Esse é que é o efeito sanfona. Porque o cérebro tende a manter o maior peso que você já adquiriu. É preciso que ele passe muitos anos numa determinada faixa de peso pra ele se adaptar a esse novo peso.

"Eu uso um número cabalístico de tantos meses quantos os quilos perdidos. Se o indivíduo perdeu 20 quilos, ele vai ter que ter 20 meses de atenção bem rígida, bem forte, pra não ganhar esse peso de novo", comenta o endocrinologista.


È o que se chama de tempo de redução, e tempo igual de manutenção.



                                                    Heider Costa
                                            Consultor do Bem-Estar


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A fome e a saciedade

A fome e a saciedade
Dr.Drauzio Varela
28/11/2004

 
 

   Você não agüenta mais viver infeliz com a própria imagem, mas adora comer e beber. Sobe na primeira balança que encontra, fica ainda mais infeliz e espera que aquela dieta milagrosa traga bem depressa o corpo dos seus sonhos. Saiba que você não está sozinha.


"Eu quero atingir a minha meta de 64 quilos. Acho que faz 16 anos que não peso 64 quilos", conta Edeli Zan, gerente de restaurante.


Engorda, emagrece, engorda mais um pouco, emagrece menos. Na semana passada a gente viu como o corpo conspira para nos fazer voltar ao peso mais alto que já atingimos. 


"Em última análise: perde e ganha peso, perde e ganha peso muda a sua composição corporal, diminui a sua musculatura e aumenta a sua gordura", explica o endocrinologista Alfredo Halpern.


  "Eu tenho aqui manequins 44 e 46. E um 42, né? Aí comprei uma calça 48. Não compro mais nada. Ou eu volto ou eu vou ficar com essa calça, gente, é essa calça jeans. Ou vou ficar com ela até o fim da vida", diz Edeli.


"Existe uma evidência clínica de que perder peso e reganhar, perder peso e reganhar faz mais mal pra saúde do que você estar já no peso acima", avisa Halpern.


"Isso não pode ser um desestímulo? Ah, eu vou perder peso pra ganhar outra vez, então é melhor ficar com o peso que eu tô e está acabado?", pergunta Drauzio.


"Não, eu acho o contrário. Eu posso te dizer que uma das grandes aquisições no combate à obesidade é o indivíduo hoje em dia ter certeza de que ele tem uma doença. É o médico transmitir para o indivíduo que ele tem que ter controle para o resto da vida".

   
   A idéia de que a obesidade é uma doença é um conceito recente. Durante muito tempo ela foi encarada simplesmente como um problema de quem come demais. 


"A Edeli é uma pessoa muito ansiosa com tudo. É difícil pra ela identificar qual é o problema", comenta o irmão de Edeli, Paulo Zan. 


"O maior problema na tua vida hoje pesa 12 quilos?", pergunta Drauzio.

"Hoje é", diz Edeli.

   "Às vezes você vê pessoas que são um pouco mais gordinhas só que não são tanto. E, no entanto, o problema da alimentação, do número de calorias, da quantidade de peso que você perdeu vira o assunto da vida, né?", comenta Drauzio.


   "Ele se relaciona com você o tempo todo como um obeso. Um obeso que o tempo todo vai sentar com você em um restaurante e não vai falar da vida, das situações afetivas, e não vai conseguir aprofundar outras coisas tão valorosas na pessoa dele. Ele vai falar o tempo todo das calorias, do que comeu ontem, do que não comeu ontem. 
   Quer dizer, ele apaga o resto da vida dele e se mostra o tempo todo como um obeso", completa o psiquiatra Táki Cordás. "Passo o dia inteiro preocupada com comida. O dia inteiro eu penso no meu corpo, na minha comida, no que eu vou comer", confessa Edeli.


  Antigamente, a gordura era considerada simples depósito para estocar energia. Hoje a ciência sabe que o tecido gorduroso é um órgão ativo que libera hormônios, ele é a maior glândula que temos. A quantidade de alimento que você ingere é controlada, em parte, pela quantidade de gordura existente em seu corpo. Quer dizer, quanto mais células gordurosas você tem, mais fome irá sentir.


   O controle do apetite e da saciedade - a sensação de que já comemos o suficiente - acontece no cérebro e independe da nossa vontade. O impulso da fome é tão forte quanto o da sede.

Na rotina diária, dois hormônios, a grelina e o PYY, controlam e administram o apetite e a saciedade. Eles atuam numa área do cérebro chamada "núcleo arqueado", através de dois circuitos de neurônios que exercem ações opostas. Um estimula o apetite. O outro, a saciedade.
Quando está vazio, o estômago libera o hormônio grelina. A função da grelina é estimular o centro da fome. A grelina nos alerta: está na hora de comer.

A medida em que enchemos o estômago, a produção de grelina cai e o apetite diminui.
Depois de passar pelo estômago, a comida vai para o intestino. Ali é liberado um outro hormônio, o PYY, que vai estimular o centro da saciedade. Um aviso para pararmos de comer.

O problema é que o centro da saciedade demora um pouco até ser ativado. Esse tempo varia de uma pessoa para outra. Mas para comer menos, é importante comer devagar, descansar os talheres, para dar tempo dos hormônios da saciedade chegarem até o cérebro.

"Eu fico assim morrendo de inveja das pessoas que comem devagar. Se eu tenho alguém conversando comigo até que eu como devagar, entendeu? Mas se eu estou sozinha, como na maioria das vezes, acabo comendo rápido", diz Edeli.

  O equilíbrio entre a grelina e o PYY indica quando devemos começar ou terminar uma refeição. Mas, dependendo do tipo de alimento, esses hormônios são liberados em quantidades diferentes.   Por exemplo, carboidratos simples, como a batata, arroz brando, farinha de trigo e os doces, são absorvidos antes dos intestinos produzirem o hormônio PYY, que inibe a fome. Por isso, quando comemos dois pratos de macarronada com pão, domingo, em família, poucas horas depois assaltamos a geladeira em busca daquele pedaço de pudim.


 Já a gordura de outros alimentos, como a carne vermelha, por exemplo, demora mais para ser digerida e o PYY pode fazer efeito, dando a sensação de que estamos satisfeitos. Mas este é o mecanismo diário de controle do apetite.
A longo prazo, o controle do peso depende de outros hormônios. Os mais importantes são a leptina e a insulina. 

  A insulina é produzida por um tipo especial de célula localizada no pâncreas e inibe o apetite. Enquanto o cérebro mantém sua sensibilidade à insulina, comemos menos e perdemos peso. Quando engordamos, a sensibilidade à insulina cai e o apetite aumenta.

O outro hormônio, a leptina, ativa o centro da saciedade - a área do cérebro que nos informa quando estamos satisfeitos. A leptina é produzida pelas células gordurosas para avisar ao cérebro a quantas anda o nosso estoque de gordura.
Quando emagrecemos, as células gordurosas diminuem de tamanho. Isso faz cair a produção de leptina. E, por causa da diminuição na produção de leptina, sentimos muito mais fome.
 
   A descoberta da leptina, em 1994, foi comemorada como uma solução perfeita para o problema da obesidade. Ratos gordos emagreceram rapidamente ao receberem injeções de leptina.
Mas nos humanos a resposta foi diferente. Os cientistas logo perceberam que a leptina não fazia o mesmo efeito. Quem era obeso continuava obeso, mesmo com grandes quantidades de leptina circulando pelo corpo.


  Se a leptina é produzida pelas células de gordura, quanto mais gordo, mais leptina. Como este hormônio inibe o apetite, os gordos, então, deveriam comer menos. Mas isso não acontece. É que neles existe uma espécie de "defeito molecular" que dificulta a ação da leptina. O que os cientistas tentam agora é descobrir como melhorar o funcionamento dos genes encarregados de reconhecer a leptina no cérebro.


  Seria ótimo se a medicina pudesse oferecer uma solução mágica para o tormento da Edeli e o de tantos iguais a ela. Infelizmente, isso não existe.
"Adoraria soluções mágicas, adoraria", sonha Edeli.


Porém, você que "ainda" não é gordo, cuidado, porque é mais fácil atirar pedras nos outros do que Olhar o que vai ser seu futuro e de sua família.
È mais fácil se prevenir, do que tentar entender estas coisas médicas, que normalmente levam asPessoas para os "pés juntos".


                                                                 Heider Costa
                                                       Consultor do Bem-Estar